quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Como João Semedo traiu o Bloco

Voltemos um pouco atrás no tempo, à última Convenção do Bloco de Esquerda, na qual se tornaram coordenadores nacionais do partido Catarina Martins e João Semedo. Eu estive lá, como delegado, e votei favoravelmente a moção política que ambos subscreviam. Não me arrependo, que a moção ainda é o que era. Uma moção que colocava o partido na linha frente na construção duma alternativa a um governo que mais não faz do que entregar o país às mãos da Troika.


Do ponto de vista político, aliás, as duas moções discutidas eram tão assertivas quanto semelhantes. O que as distinguia não era bem a política, mas sim o caminho a seguir. A moção A, a vencedora, defendia uma necessidade total duma viragem à Esquerda, sem cedências à ideia de que se pode confiar num mal menor chamado Partido Socialista, que mantinha (e mantém) a sua assinatura num memorando que destrói a vida de todos nós. A moção B, que perdeu, colocava o BE como a bengala do PS nos anos seguintes. Por isso apoiei e escolhi a A.

O problema que se seguiu chamou-se sempre João Semedo. Desrespeitou aquilo por que foi eleito e colocou o BE numa posição submissa a um PS que, ainda por cima, todos os dias pendia ainda mais para a direita. Ele próprio pareceu desistir do projecto nacional quando se candidatou à Câmara Municipal de Lisboa, assumidamente para fazer um entendimento pós-eleitoral com Costa. Começou por dizer ao DN, em 16 de Junho deste ano, que “é compatível ser vereador, ser deputado e ser coordenador do BE”. Até pode ser compatível, mas também é contrário à confiança que os aderentes do Bloco nele depositaram. Pior, é uma busca absurda por protagonismo que apaga o resto do partido.

Claro que a coisa não ficou por aqui. Cheguei a duvidar a que partido o meu camarada João Semedo pertencia. Se ao Bloco, se ao PS. Em Julho deste ano, os partidos da Troika chumbavam a proposta do Bloco na AR para renegociar a dívida, salvar os salários e o Estado Social. Ao mesmo tempo, Cavaco evitava eleições antecipadas pela “irrevogável” demissão de Paulo Portas e esses mesmos partidos davam as mãos em torno da austeridade. As coisas pareciam claras: o PS encostava-se ao programa que salva bancos e leva pessoas à falência. 

Como um herói surgindo do nada, apenas Semedo saiu em defesa de Seguro, dizendo não acreditar que o “PS que tem vindo a sublinhar a sua política de oposição a esta maioria, venha agora dar a mão a uma maioria caduca e decadente”. Não acreditou, mas aconteceu.

Por essa altura, o que ficou claro é que João Semedo traíra todos os que o apoiaram na moção A. Talvez por isso, nos espaço de dez meses, a intenção de voto no Bloco de esquerda tenha caído para os 6%. E isso paga-se caro. Claro que paga.

Regressemos aos dias que correm, no meu caso a Aveiro. Uma equipa numerosa de pessoas que abdicam de si todos os dias para que o Bloco exista, trabalhou muito, desde a construção do programa político, que envolveu inúmeras reuniões com cidadãos, até à colagem de cartazes, passando por toda a difícil burocracia. Estar na política envolve muito sacrifício, embora Semedo não o saiba.Todos fizeram de tudo, às vezes com quatro horas de sono por dia, em torno duma enorme vontade de mudança. Os maus resultados também andaram por cá, mas mantivemos a capacidade de luta, com um eleito na Assembleia Municipal, outro na maior freguesia do concelho e uma pequena grande surpresa em Ílhavo, onde pela primeira vez se elegeu para a Assembleia municipal.

Qual foi a reacção de Semedo? O mesmo que passou os últimos dez meses a defender as políticas de direita do Partido Socialista, veio à Antena 1 dizer que o Bloco não apresentou candidatos credíveis nas eleições e que o trabalho autárquico do Bloco tem sido mau.
Não tinha esse direito, mas ainda bem que o fez publicamente. Eu tenho agora legitimidade para lhe dizer aqui que considero que ele é o maior responsável pelos péssimos resultados nas eleições. Dirigiu o partido de forma péssima, numa linha política que contraria as bases do partido e, pior do que tudo, traiu quem nele confiou.

A boa notícia é que o Bloco é maior do que o João Semedo.

2 comentários:

Vita C disse...

Como aderente do Bloco, concordo e discordo do que escreves.
Houve candidatos claramente pouco credíveis, e pude constatá-lo em sessões de esclarecimento a que assisti. Candidatos que, mesmo com trabalho feito, cometeram erros de palmatória a nível autárquico. E atenção, pois considero que a política de proximidade é o veículo de oportunidade para um partido se apresentar às pessoas como fazedor de obra.
Resido em Oeiras e, portanto, ainda mais chocante é que para alguns cargos, alguns candidatos não fossem capazes de transmitir o programa do Bloco que, considero, tinha pernas para andar mas ainda mais para melhorar. Não me refiro, convém afirmá-lo, ao candidato à Câmara, que tem todo o meio apoio e respeito.
Por outro lado, o Bloco veio enfraquecendo com esta liderança que deixou de lado criatividade e energia e, na minha opinião, esta fraqueza não se deveu tanto a João Semedo como a Catarina Martins. Creio que foi um erro de casting. Concordo que foi pouco clarificador o coordenador concorrer a Lisboa, mas não o antagonizo.
Pano para mangas, é o que esta discussão tem :D

Bagaço Amarelo disse...

Vita C, não acho que a questão da credibilidade seja a central, mas sim se o Semedo, que fugiu à linha política da moção A que apoiou na Convenção, e que agora tem um partido com uma intenção de voto nos 6%, deve usar este argumento ou o do trabalho autárquico. Eu estou cansado de ver o Bloco a portar-se como uma noiva deixada no altar pelo PS. :)