terça-feira, 1 de maio de 2012

sabe bem votar tão pouco


Talvez eu tenha sido um dos únicos que não ficou espantado pela forma como, mais uma vez, um número significativo de cidadãos portugueses se sujeitou à humilhação de um grande grupo económico. Estou a falar da Jerónimo Martins, dos supermercados Pingo Doce e dos milhares que se sujeitaram a horas de espera, empurrões e até tiros, tudo para poderem ter acesso a mais uma campanha promocional.
A ideia que fica é de um grupo enorme de galináceos a lutar pelos grãos de milho que alguém atirou para o chão. A certeza é que este povo já não tem Amor próprio e não sabe, nem quer saber, porque é que está pobre. A miséria explica-se, muitas vezes, através dela mesma.
Este é o povo que elege, há demasiados anos, governos que o levam a isto mesmo: à pobreza e à humilhação. É o povo que elege sempre os mesmos, cada vez tem menos vida, e depois se indigna porque um árbitro se enganou a marcar um fora de jogo numa partida qualquer de futebol.
Em Portugal vota-se pouco, e depois sobram os que votam mal. Por um momento percebi em que é que a direita portuguesa é bastante melhor que a Esquerda. A direita sabe o povo que tem, e desce ao nível exigido para ganhar eleições. A Esquerda não...

14 comentários:

Malena disse...

Encolho-me por dentro ao ver o povo que somos... :(

Bagaço Amarelo disse...

malena, não nos podemos encolher... senão seremos eternamente assim. :)

Sofia disse...

Para ser sincera compreendo o seu ponto de vista e o de todas as pessoas que comparam esta campanha promocional realizada pelo Pingo Doce a um "atirar milho aos pombos" (ou galináceos,usando os seus termos). Estas empresas manipulam as pessoas de uma maneira incrível para obter os resultados que pretendem (sim, desenganem-se os que pensam que a empresa em questão teve um grande acto de altruísmo).
Por outro lado, no entanto, não posso deixar de perceber o ponto de vista das pessoas que se submeteram a enormes filas de espera para obterem um desconto no mínimo de 50 euros, uma vez que tendo em conta a situação actual em que muitas famílias vivem, este é um grande montante. Estas pessoas não podem dar-se ao luxo de, mesmo tendo consciência de que estão a ser manipuladas, não aproveitarem este tipo de descontos e muito menos de esperar por um "D. Sebastião" salvador.
Cumprimentos :)

Bagaço Amarelo disse...

olá sofia, tecnicamente falando, as pessoas que estão mesmo em situação aflitiva são aquelas que nem acesso têm a este tipo de campanhas, porque nem 100 euros têm para gastar duma vez. Isto foi uma jogada política do Pingo Doce, num dia específico e significativo para a luta dos trabalhadores. e os trabalhadores (alguns, pelo menos) foram na fita.
O que eu estou a dizer é que as mesmas pessoas que, para pouparem cinquenta euros se ajoelham desta forma perante um supermercado, amanhã votam mal ou nem sequer votam. Não fazem nadinha, politicamente falando, por elas acima. :)

redonda disse...

Não será uma dedução muito radical?
Eu não consegui arranjar a energia para ir, mas no final do dia fiquei a pensar no que poderia ter poupado...

Bagaço Amarelo disse...

redonda, radical é chegarmos a este estado de miséria e ausência de vida em simultâneo. radical é um modelo económico que permite que haja fome e consumismo em simultâneo... :)

caracois dourados disse...

Esta foi mais uma prova de que é possivel ter os preços baixos "o ano inteiro".
Concordo contigo, foi uma jogada baixa, um golpe político a que chamaram markting. Mas a verdade é que não são os portugueses que são uns selvagens e eu não critico quem foi comprar porque foi uma promoção que se nota significativamente no orçamento familiar e principalmente quando os trabalhadores recebem salários tão baixos e vêm os seus direitos atacados. Critico quem pressionou e obrigou os trabalhadores a trabalhar no dia em que deviam estar a comemorar o 1º de Maio, dia internacional do trabalhador!
E se os portugueses não votam nas eleições também é culpa dos grandes grupos economicos que fazem altas lavagens aos trabalhadores tanto nos seus locais de trabalho como através da comunicação social.
MAs sinceramente há outras maneiras de ser activo politicamente mesmo sem votar. DEmocracia não é só direito ao voto, é direito à Luta! E eles tem é medo da luta dos trabalhadores

Eugénia Brito disse...

Olha, por coincidência (ou talvez não:) acabo de escrever uns parágrafos jeitosos sobre demagogia, no meu novo livro... Quando o publicar, daqui por uns seis anos ou assim, talvez já ninguém saiba quem é o Jerónimo Martins, mas muita gente saberá que tu existes. E ainda bem!

Ana Carneiro disse...

Eu compreendo bem o vosso ponto de vista. No entanto, a sério, que nem por um momento vos passou que para quem recebe 500 ou 600 € por mês mas lá vai poupando e tinha 200 ou 300 € que podia gastar, poupou ou 'ganhou' 100 ou 150 €, o dinheiro que demora uma semana a ganhar, em algumas horas de puro sofrimento? E se vos dissessem que podiam ganhar esse dinheiro num feriado, em 5 horas, não ficavam imediatamente intrigados e a pensar 'faço o que for!' ? Eu pensei

Bagaço Amarelo disse...

cacracóis dourados, e mais, foi um acto consciente contra o dia do trabalhador, que ainda por cima resultou. :)

eugénia brito, se souberes que eu existo, e eu que tu existes, chega tanto... :)

ana carneiro, isso foi o que passou pela cabeça dos gajos da jerónimo martins, quando decidiram mostrar a este país que têm um controle total sobre os trabalhadores/consumidores, e que eles não têm consciência de classe nem fazem a mínima ideia de que estão a ser explorados. :)

Sérgio disse...

mas explica lá pq é que a campanha foi um atentado ao 1.ª de Maio

macedo disse...

este post fez-me lembrar um comentário de um amigo meu que era qualquer coisa assim:

"a esquerda gosta do povo em abstrato, não do povo em concreto"


e também algo que eu li na net:

"Quando a esquerda toma consciência de que os populares são “feios, porcos e maus”, propõe:

Feios:

1. Cirurgia plástica e reconstructiva gratuita, no âmbito do SNS
2. Programas de luta contra a obesidade
3. Proibição do consumo de tabaco em locais públicos
4. Interdição da venda de álcool a menores

Porcos:

1. Descontos na água a famílias carênciadas
2. Descontos na electricidade a famílias carênciadas
3. Assistência social

Maus:

1. Escolaridade obrigatória até ao 12º ano
2. Novas oportunidades
3. Proibição de promoções no Pingo Doce

Quando a direita toma consciência de que os populares são “feios, porcos e maus”, pensa:

1. “What else is new”?"

Cumprimentos

Pedro

macedo disse...

ou então assim:

"A esquerda gosta do “Povo”, sim, mas da ideia abstracta de uma massa que eles querem moldar à sua imagem, um “povo” insípido, ordeiro, que segue os ditames da elite cultural dominante. O “Homem Novo”, um ser reumático e com mais de cem anos, continua aí, de bengala, a impedir que a sociedade evolua. A esquerda adora um certo tipo de liberdade, a liberdade positiva, ironicamente uma liberdade condicionada, que tem como limites aqueles que eles próprios prescrevem, em leis que matam a escolha."..

peço desculpa por copiar para aqui coisas lidas noutros blogs. só o fiz para me ajudar no argumento q estava a escrever. alguém já o tinha feito melhor que eu.
Preguiça. outro defeito tramado do português (pelo menos deste que lhe escreve.)

Cumprimentos

Pedro

Bagaço Amarelo disse...

sérgio, esta promoção teve um objectivo político claro. ainda há pouco tempo os trabalhadores eram contra o Pingo Doce, por causa do domicílio fiscal ter mudado. agora, por causa duma promoção, andam aos tiros para entrar lá.

macedo, a direita tem esse problema, o de não perceber que a esquerda é discussão contínua e não essa imagem ultrapassada da guerra fria. cumprimentos.