quinta-feira, 21 de julho de 2011

promiscuidade entre política (PCP, PS, PSD, CDS) e futebol

PCP, PS, PSD e CDS fizeram ontem uma demonstração em Aveiro de como se pode atropelar a Democracia em nome de um interesse menor, decidindo à porta fechada aquilo que não conseguiram acordar na Assembleia Municipal de Aveiro. De facto, é muito mais fácil assumir um compromisso promíscuo com o futebol profissional de um clube e com os interesses do seu investidor principal quando ninguém está a ver.
Enquanto representante do Bloco de Esquerda na Comissão Permanente recusei-me a fazer parte desse cozinhado que lesa nitidamente os interesses do município de Aveiro para beneficiar uma Sociedade Anónima, dando todas as condições para que o Executivo Camarário ceda gratuitamente o Estádio (um investimento público de mais de 60 milhões de euros) à SAD do Beira-Mar, ficando esta com a parte que dá lucro (publicidade e receitas de jogos) e o município com a parte que dá prejuízo (divide a despesa nos jogos que dão prejuízo e continua com custos de manutenção e, claro, a pagar a dívida ao banco).
Enquanto deputado eleito pelo Bloco tenho um compromisso com os eleitores e nenhum compromisso com o clube Beira-Mar. Para os outros partidos, todos eles, parece que não é bem assim. Aliás, o candidato do PCP à presidência da Assembleia Municipal, António Regala, nunca pôs os pés em nenhuma sessão da mesma por estar ocupado a transformar o clube Beira-Mar na Sociedade Anónima entretanto aprovada. É parte interessada nesta promiscuidade e percebe-se bem, portanto, o voto do seu substituto Salavessa.
Este caso em que, de forma indirecta, se está a prejudicar o município para subsidiar uma empresa e o futebol profissional, é tão grave que dois vereadores da maioria de direita já perderam os seus pelouros por se terem recusado a entrar na negociata. Votaram contra o acordo em reunião de Câmara, depois de ameaçados pelo presidente Élio Maia de que isso teria consequências, e foi-lhes retirada a confiança política. Elogio-lhes a verticalidade e gostava que houvesse mais políticos assim. Mas em Aveiro, pelo menos, parece que não há...
Estamos a falar de um longo percurso que já passou por várias fases. Uma em que o PS na Câmara prometeu pagar 500 mil euros por ano ao Beira-Mar para que este jogasse no Estádio Municipal, como se fosse lógico um senhorio pagar a renda ao inquilino para que este lá habite. Outra em que o presidente Élio Maia vendeu por pouco mais de 1 milhão de euros, pela calada da noite, o terreno das piscinas ao Beira-Mar para que este o vendesse logo a seguir à empresa Nível 2 por mais milhão e meio de euros. Esse terreno, à data, teria um valor de mercado de cerca de 9 milhões de euros. Mais ainda, nessa negociata feita às duas da manhã o presidente Élio Maia meteu o cheque no bolso e "esqueceu-se" dele deixando-o expirar, criando assim uma dívida eterna do clube ao município que nunca mais é paga.
Ontem mesmo, logo a seguir aos partidos do acordo terem fingido que acreditam na liquidação dessa dívida, o comunista António regala dizia à imprensa que acha que o Beira-Mar não deve nada à Câmara. Esclarecidos? Eu também não.
É uma vergonha a promiscuidade entre o futebol e a política em Aveiro. É uma vergonha que em menos duma década, contas feitas ao estádio e às negociatas, o concelho de Aveiro já tenha gastado mais de 70 milhões de euros por causa de futebol. É uma vergonha que todos os partidos joguem às escondidas com os seus eleitores e, a esse propósito, quero fazer uma ressalva sobre a vergonha que é o PCP em Aveiro, porque acredito que a orientação nacional daquele partido é contrária a estas práticas.
O Bloco de Esquerda em Aveiro não cede nem cederá às pressões dos interesses económicos privados em detrimento do interesse público, e considera vergonhoso que num concelho tão marcado socialmente pela pobreza e pelo desemprego, se gaste tanto dinheiro em futebol.

Ver relato do meu camarada de bancada Nelson Peralta

13 comentários:

sendyourlove disse...

...que povo tão pequenino nós somos...
Gerimos o país, como as Câmaras, as juntas e a colectividade do bairro da mesma maneira... favorecendo os amigos, familiares e pedidos destes para terceiros, nunca vendo para alem do nosso umbigo...
Público, neste país significa que pode ser usurpado...

bagaco amarelo disse...

sendyourlove, concordo plenamente. pior... como político confirmo isso regularmente e fico triste. :)

$hort disse...

Porque não denuncias isso à comunicação social? Tipo i online; Destak?

Nuno Costa [NCFEVER] disse...

A ser verdade, não pretendendo ferir a sua honestidade apenas salvaguardar o direito ao contraditório, trata-se de um verdadeiro caso de policia que não deve passar incólume!

Sou um cidadão português morador no distrito e sinto-me lesado ao tomar conhecimento do caso.

Que diabo, será que só a arraia-miúda é que é condenada no nosso país.

bagaco amarelo disse...

$hort, nas sessões da Assembleia Municipal está comunicação social presente, normalmente local e que é completamente controlada. mas está lá... a ver o que sai amanhã... :)

nuno costa, eu concordo... e embora eu seja apenas um político e não um funcionário do ministério público, garanto-te que tudo faremos em Aveiro para que isso aconteça. :)

$hort disse...

Bagaço vim aqui ao mesmo tempo que leio o artigo da Fernanda Cancio no DN e isso são forças de bloqueio! Denuncia aos gratuitos!

bagaco amarelo disse...

short, pois. o Diário de Aveiro diz hoje que eu abandonei as negociações por considerá-las "um arranjinho que protege o clube e prejudica o município". na verdade, eu disse "que protege um investimento privado e prejudica o município". Pormenores... :)

Pedro Neves disse...

A defesa de um emblema com quase cem anos, um emblema quem é um simbolo de Aveiro, um emblema que ainda hoje faz mais pelos jovens do que todos os politiqueiros da cidade...éum interesse menor?

bagaco amarelo disse...

pedro neves, o contrato de concessão não defende emblema nenhum, defende sim um investidor duma equipa profissional de futebol, mas essa questão nem sequer é para aqui chamada. a questão maior, essa sim, é que se quer prejudicar o erário público por causa duma industria que se chama futebol.

Ulisses disse...

Eu não gosto de futebol.
Abro logo assim o comentário para deixar essa parte esclarecida.
Posto isto, também não gosto de coelho à caçadora e não é por isso que critico quem goste...
Claro que vejo a utilidade pública dos clubes de futebol...
...mas não obstante, são entidades privadas. E com isto está tudo dito.
Também não sou particularmente fã dos partidos políticos que andam por aqui. Não querendo ofender ninguém, muito menos o autor do post, creio que a maioria das pessoas que ocupam cargos políticos não o fazem com o sentido de serviço à comunidade, mas sim como carreira e como oportunidade para estar numa posição onde se podem beneficiar. E isto é transversal a toda a classe politica, da direita à esquerda. Mas isto, claro, é uma opinião pessoal minha.
Não digo com isto que não há políticos sérios...
...claro que há! São é muito difíceis de encontrar no meio dos outros todos...
Dou-me ao trabalho de escrever este comentário simplesmente por ter lido o comentário de Pedro Neves que exalta a defesa do emblema que, nas palavras dele, é um símbolo de Aveiro. Não contesto que o seja, mas os ovos-moles também o são...
Mas, tendo em linha a pergunta que ele faz no fim do comentário, respondo com outra pergunta:

-Os fins justificam sempre os meios?

E outra ainda:

-Desbaratar dinheiro do erário público, com lucro óbvio para empresas privadas, em nome de um suposto emblema é justificado? Esse dinheiro não seria melhor aplicado ao serviço da população em geral?

A promiscuidade entre a politica e o futebol tem levado, neste rectângulo à beira mar plantado, a casos curiosos, como o estádio do Algarve e a venda em hasta publica do estádio do Leiria. E para ser franco, confunde-me este estado de espirito das pessoas que sabem que o que é feito é errado, mas ainda assim desculpam porque "é pró futebole".
Acho que enquanto não se mudar de mentalidades e não se começar a punir os prevericadores, seja neste aspecto, seja em tantos outros, merecemos plenamente o país que temos...

bagaco amarelo disse...

ulisses, obrigado pelo comentário. a utilidade pública dos clubes de futebol não pode ser considerada no futebol profissional, que é apenas um negócio e ainda por cima muito pouco claro. :)

Cármen disse...

*ar imponente, limpeza da garganta*
A senhora dona Cármen Veloso tem o desgosto de vir aqui a esta entrada deixar-lhe um comentário pouco relacionado com o conteúdo do texto, anunciando-lhe que lhe foi enviado um selo quer para esta esplanada quer para a sua outra mais popular na blogosfera.
Os meus respeitosos cumprimentos,
Uma chavala que por vezes (?) bate mal do sistema.
:p

bagaco amarelo disse...

obrigado senhora dona cármen. hoje, quando me passar a dor de cabeça, ponho o selo na parede. :)