sábado, 26 de março de 2011

a única saída possível para a crise!

Perante a chantagem de José Sócrates se demitir caso o seu PEC IV não passasse na votação da Assembleia da República, nenhum dos partidos da oposição cedeu e o primeiro-ministro foi mesmo obrigado a demitir-se. Portugal encontra-se agora mergulhado em duas crises: uma económica e outra política. A questão é que a crise económica é real e a crise política pode transformar-se numa oportunidade. A oportunidade de mudar o que está mal.
Com efeito, os partidos da Esquerda e da Direita parlamentar 'obrigaram' o PS a cair do Governo em conjunto mas com intenções diferentes. A Direita quer exactamente o mesmo plano de austeridade mas sendo ela própria a implementá-lo, e a Esquerda quer pôr fim já à austeridade para pôr em marcha um plano de desenvolvimento económico rápido, justo e eficiente.
É que a austeridade não é a única saída para a crise económica. Aliás, nem se sequer é uma saída para qualquer que seja a crise, e se houve algum mérito nos sucessivos PECs do Governo PS foi esse mesmo: demonstrar que a austeridade só empobrece. Ao primeiro PEC sucedeu-se outro, depois, outro, depois outro... e nunca mais sairíamos disto enquanto o Governo não caísse.
Ainda esta semana Paul Krugman, prémio Nobel da Economia, dizia isso mesmo na sua coluna do The New York Times*, citando exactamente o erro do Governo de José Sócrates, ou seja, é um erro reduzir a despesa pública quando há desemprego elevado porque isso afunila ainda mais a Economia criando uma bola de neve imparável. É óbvio. Tão óbvio que, tirando a direita parlamentar (PS, PSD e CDS), todos perceberam isso.
Posto isto, é legítimo perguntarmos porque é que essa direita insiste em percorrer o caminho do empobrecimento do país, em vez da sua recuperação económica. A resposta também me parece óbvia. Essa direita, como se viu bem nas visitas de Passos Coelho a Bruxelas e de José Sócrates à Alemanha, é a direita que representa os interesses instalados da burguesia europeia (leia-se principalmente bancos alemães), e a dívida externa portuguesa é essencialmente aos bancos privados alemães. Ora, com o afunilamento da Economia portuguesa, a dívida não pára de aumentar gerando todos os dias mais lucros  para esses bancos, e nem sequer há o perigo de um dia não a podermos pagar. É que o Banco Central Europeu, que apesar de ser público e gerir um Orçamento com base nos impostos dos trabalhadores europeus, nunca compra dívida de um Estado para aliviar a taxa de juro com que este pede empréstimos. Antes pelo contrário, empresta dinheiro barato (1%) aos bancos privados, para que depois estes o emprestem sete ou oito vezes mais caro aos Estados. Se o Estado falhar o pagamento, aí o BCE já compra a dívida, mas apenas no mercado secundário, ou seja, os títulos de dívida que esses bancos possuem.
Podemos também questionar se políticos de direita eleitos pela população andam, de facto, a favorecer bancos e a prejudicar quem os elegeu propositadamente. A resposta é só uma: Sim. E aí já perdemos a conta ao dinheiro que o Governo do PS enterrou em bancos, contribuindo assim decididamente para o crescimento da crise portuguesa. Só da primeira vez foram 2,2 mil milhões de euros no BPN e 450 milhões no BPP, e a isto ainda podemos somar a descapitalização do Estado com as privatizações da Galp, da saúde, educação, água. Tudo numa lógica de um Mercado Capitalista que já estava a abrir brechas.
Agora, para provar que isto tudo é assim mesmo, temos o exemplo da Islândia, um país cujo crescimento Económico era essencialmente especulativo e que, por isso, se afundou mais depressa do que todos os outros. No entanto, hoje em dia já ninguém fala de crise naquele país. Recusou-se a salvar bancos e hoje está mesmo a tentar criminalizar na Justiça os políticos que o fizeram, mudaram de Governo e de modelo económico (para a Esquerda), recusaram a austeridade e agora são um exemplo. Um exemplo de que a Direita Europeia não quer que se fale muito, mas isso é outra história. É só há uma saída para a crise: votar à Esquerda. 


13 comentários:

earlymorningtalk disse...

sr. bagaço, mea culpa de não lhe conhecer esta faceta (ainda estou em fase de escarafunchar o outro blog). mas o texto está muito bom e com alguns pontos de vista de que ainda não me tinha apercebido. boa :)

TaViTa disse...

É isso tudo! Nem mais nem menos! Apoiadíssimo. xD

Filipa Arez disse...

qualquer bom economista vê facilmente que a saída para uma crise económica não é o aumento da austeridade... isso só serve alguns interesses! a saída da crise é cortar no dispensável e apoiar as actividades que efectivamente trazem crescimento à economia portuguesa. descer salários? para diminuirmos o consumo, consequentemente a produção e respectivo PIB? Para aniquilarmos de vez a classe média? Não... qualquer bom economista sabe que esse não é o caminho para a saída da crise...

bagaco amarelo disse...

earlymorningtalk, não há culpados. há é que não desistirmos da política. goste-se ou não, é a única saída. :)

TAvita, obrigado. :)

filipa arez. verdade. mas nem podemos deixar que a Economia ou a política sejam domínio só de alguns. não são. :)

Filipa Arez disse...

claro que não. daí eu dizer que qualquer bom economista sabe isso, pelo que não percebo o porque de este tipo de medidas serem adoptadas. as pessoas não são estúpidas, podem não dominar o mundo económico mas percebem que não pode ser só isto! a união europeia quer é que atinjamos os objectivos propostos, seja pela via da despesa ou da receita, isso pouco importa. eu acho que as pessoas se deviam interessar mais pela vida política do país, e faz-me um bocado de confusão quado ouço frequentemente "eu não gosto de política, não falo de política, isso não interessa". pode não se gostar de política, mas acho que não podemos é virar as costas à política. depois acontece o que acontece e chegamos onde chegamos... sinceramente também acho que a culpa é um pouco de todos nós...

Stiletto disse...

Mas o quê é que propões afinal? Além de um governo de esquerda e consequente "desprativização" de sectores chave?
Eu até acho que tudo o que é básico deveria ser público, e com preços tabelados de modo a cobrir apenas custos. Havendo concorrência privada de modo a manter o sector público ágil.
Mas não me parece que se resolva a crise sem austeridade. Chateia-me é que ela toque sempre aos mesmos. Há muito para cortar na despesa pública (e não falo de ordenados..) mas não dá jeito porque isso mexeria com os milhares de tachos que por aí se criaram.

bagaco amarelo disse...

filipa arez, exactamente. o princípio é mesmo esse. É possível que a Economia sirva as pessoas e não o contrário. Esse é um modelo económico de Esquerda que tem que seguir. :)

Stilleto, eu sozinho não proponho nada, porque nem sequer sou um tipo que acha coisas. Aliás, o problema de Portugal é haver demasiadas pessoas a achar coisas sem no fundo saberem muito bem o que acham. Eu defendo um modelo económico conhecido, chamado socialismo e pensado com base na Razão. Proponho-o porque acredito que é mais justo e, implantado democraticamente funciona. O que eu estou a dizer aqui é isso mesmo. :)

wine, wine and more wine.. disse...

Agree with you...
Socrates demitiu-se na Quarta, e na sexta o governo Canadiano caiu, e la vamos nos pela 4 vez as urnas no espaco de 7 anos, o mais interessante e q por este lado as coisas vao ficar outra vez iguais e o estupido do Harper fica no poder outra vez, nao tenho duvidas, alguem reclama? nao, ninguem.....

bagaco amarelo disse...

wine, wine and more wine., exacto. :)

sendyourlove disse...

fantástico o teu texto...concordo a 100%

bagaco amarelo disse...

sendyourlove, obrigado. :)

Luis disse...

Boas!

Eu concordo com algumas coisas, mas não com a totalidade...

Ora, em primeiro lugar, não concordo com quem culpa o Sócrates por termos entrado na crise. Ele não teve nenhuma responsabilidade nesse campo. No entanto, fico muito pasmado quando lhe retiram a responsabilidade de a ter agravado.

Não concordo com quem diz que o PSD, pela mão do Passos Coelho, vem salvar o nosso país ou fazer algum milagre. Mas faz-me muita confusão ouvi-los aos molhos a dizer que "mal por mal, venha outra vez o Sócrates". Ainda não viram o PC a trabalhar e já é pior que o mentiroso e desastroso Sócrates.

A austeridade não é dispensável para a recuperação, no entanto, está longe de ser suficiente, felizmente.
Os cortes são essenciais em despesas injustificáveis. O PC referiu hoje ou ontem que neste momento não há dinheiro para a saúde mas há dinheiro para pagar salários milionários a uma média de 7 administradores por cada hospital público, com direito a veículo à disposição - e todos sabemos que tipo de veículo.

Por aqui deduzo que PC esteja disposto a mexer em alguns tachos que por aí andam e a reduzir a despesa onde faz sentido que ela seja reduzida.

Não aceito a desculpa "isso é o que ele diz, o que ele faz é outra coisa". Isto é válido para todos eles, sem qualquer excepção. Se acreditamos que o PC não o vai fazer, temos que acreditar que nenhum o vai fazer.

Concordo a 100% que partidos como o BE e outros mais pequenos fazem falta na democracia e à democracia. Não concordo, no entanto, que estejam preparados para governar, pelo menos não sozinhos.

Tenho ouvido todos os dirigentes políticos ultimamente, com muita atenção. Já tomei a minha decisão, mas não deixei de ouvir argumentos. Sou suficientemente flexível para alterar a minha posição, caso apareçam argumentos válidos.

É importante referir que não tenho cor política, apesar de ter uma ligeira preferência pelas ideologias defendidas pelo PS - é importante lembrar que ideologias políticas são cada vez mais diferentes de actuação na realidade... E um exemplo disto é precisamente o BE, cujo líder disse qualquer coisa como "É importante que a Europa se una, se recomponha e viva.". isto quando todos sabemos qual é a posição do partido relativamente à UE.

Não quero que este comentário seja visto como um ataque a qualquer partido ou dirigente político. Reflecte apenas a minha opinião e não pretende atingir ninguém, à excepção talvez daquele que atinge os meus bolsos e ouvidos todos os dias com mais uma ou outra barbaridade como culpar a oposição por tudo o que estamos a viver...

Abraços.

bagaco amarelo disse...

luis, obrigado pela opinião. :)