quarta-feira, 16 de março de 2011

Cavaco Silva como Rambo

Do discurso de Cavaco Silva na justa na Cerimónia de Homenagem aos Combatentes, por ocasião do 50º Aniversário do início da Guerra em África, escusamos de perguntar onde estava ele antes do 25 de Abril, ou seja, antes do fim da Guerra. Todos sabemos a resposta. Esta em Portugal e era bufo da PIDE, ou seja, um apoiante silencioso do Regime que mantinha a Guerra fora e dentro de portas.
Passe a ironia, o maior elogio que se pode fazer ao actual Presidente da República Portuguesa é que tem um discurso honesto, tão transparente quanto igual a ele próprio. Resta saber se o é assim propositadamente, ou porque não consegue mais.
É que do discurso realça a sua vontade de fazer um filme do estilo do Rambo, em que um herói português regressa secretamente às ex-colónias portuguesas para salvar os prisioneiros que,mais de trinta anos depois, continuam detidos em campos escondidos no meio do mato. Para ele, os soldados portugueses dispuseram-se "a perder as suas vidas pela Pátria" e saúda ainda "os militares de etnia africana que, de forma valorosa, lutaram ao nosso lado. Todos, combatentes por Portugal!".
Cavaco Silva é presidente de um país que condenou o regime de que ele próprio parece saudosista, e condenou também a guerra colonial onde, por motivos históricos, se deveria saudar a justa luta dos povos pela sua autodeterminação e homenagear os soldados que sofreram em África, porque eram obrigados a fazê-lo e não porque se voluntariavam para o fazer. Faz toda a diferença.
Talvez por isso, por fazer toda diferença, enquanto primeiro-ministro Cavaco Silva não mexeu uma palha para compensar as feridas de guerra como o stress pós-traumático ou as deficiências físicas que impediam, e ainda hoje impedem milhares de ex-combatentes de terem uma vida normal.
Do discurso, ou melhor, do filme de Cavaco, falta por isso o essencial. O reconhecimento de que os soldados de ambos os lados foram vítimas, e que talvez por isso eles próprios tenham contribuído de forma decisiva para acabar com a guerra e com o regime.

2 comentários:

João Quando Era Pequenino disse...

Poucos são os portugueses que não viram o Rambo, pouco são os portugueses que viram o Rambo e não gostaram do Rambo, os portugueses que não viram o Rambo gostam do Rambo porque o actor é o mesmo daquele filme do boxe.
Conclusão: venham daí mais Rambos que Portugal vai continuar a votar e a acenar-lhes quando passam, alguns até chegam a pedir autógrafos na Casa da Gaivota Azul.

bagaco amarelo disse...

lol