quinta-feira, 30 de setembro de 2010

A Política de Rabo na Boca

O Governo de Sócrates anunciou esta semana, estrategicamente durante um jogo de futebol do Benfica na Liga dos Campeões, as mais recentes medidas de combate ao défice português, seguindo supostamente o conselho da OCDE já largamente divulgado nos media uns dias antes. O problema é que nem a OCDE aconselhou o governo português a seguir este caminho, nem este caminho combate realmente o défice público.

Por um lado, sabe-se que o relatório técnico da OCDE que aconselha a diminuição de salários e o aumento de impostos no nosso país foi feito com a ajuda preciosa de funcionários do Estado português, tornando assim a OCDE numa mera máscara duma operação feita às escondidas dos portugueses. Por outro lado estas medidas não visam combater défice nenhum, visam apenas enfraquecer ainda mais aqueles que dependem única e exclusivamente da sua força de trabalho para sobreviver.

Ao som dum tango qualquer, o PSD de Passos Coelho, que ainda a semana passada foi autor duma novela em que se recusava fechar-se no mesmo quarto a sós com o primeiro-ministro, foi agora o primeiro a abrir a porta à aprovação do Orçamento de Estado do governo PS. Conclui-se portanto que no mesmo quarto sim, desde que com a porta aberta, e o Orçamento vai mesmo ser aprovado.

Mas com esta dança só fica espantado quem quer. É que entre o PS e o PSD é mais forte aquilo que os une do que aquilo que os separa, e o que os une é isto mesmo: a austeridade de rabo na boca. As políticas sucessivas dos seus governos geram crise económica, a crise económica implica medidas de austeridade, as medidas de austeridade geram mais crise económica, mais crise económica implica mais medidas de austeridade. E não saímos disto.

Não saímos disto, claro, enquanto não saírmos desta dança sem nexo. A descapitalização do Estado através da privatização de empresas públicas que rendiam milhões de euros todos os anos, como por exemplo a Galp, empobrece-nos a todos menos a quem as compra, e quem as compra passa a querer ter o menor número de trabalhadores possível e gastar o menos possível em salários, contribuindo assim para mais desemprego e mais miséria.

Mas para além da Galp as pretensões do governo em privatizar os CTT, a Caixa Geral de Depósitos, o que resta da PT ou tudo o que for possível não se fazem esperar. Empresas que dão lucro ao Estado e que de um dia para o outro deixam de dar, obrigando por isso ao aumento de impostos directos e indirectos para conseguir receita.
Outra possível fonte de receita é pedir dinheiro emprestado, mas o Banco Central Europeu não empresta dinheiro a Estados, empresta-o apenas a bancos privados que depois o emprestam aos Estados a taxas de juro seis ou sete vezes mais altas, gerando lucros astronómicos nos quais o governo não se atreve a tocar para combater seja que crise for.
Esta política chega mesmo a assumir contornos de cinismo para com quem trabalha quando o governo pede um esforço suplementar para salvar da falência os bancos. Só no BPN José Sócrates enterrou 2,2 mil milhões de euros dos nossos impostos que nunca mais ninguém viu nem vai ver. No BPP foram 4500 milhões... e os bancos continuam a pagar menos IRC do que uma senhora que tenha uma mercearia de esquina...

Tudo isto somado aos mil milhões de euros de dois submarinos que não vão servir para nada, mais o dinheiro que se perde em off-shores e que ninguém consegue calcular exactamente quanto é, resolvia-nos os problemas todos. Basta ter coragem para mudar esta política de rabo na boca, e está mais do que visto que ela não muda com estes dois dançarinos.

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