quinta-feira, 27 de maio de 2010

não bebam vinho...

As visões divergentes sobre o Rendimento de Inserção Social baseiam-se, no fundo, nas duas formas opostas como a esquerda e a direita vêem a política social. Para a direita o apoio social é sempre uma espécie de caridade, uma esmola tipo "toma lá meu filho mas não gastes em vinho". Para a esquerda a política social é uma forma de fazer justiça num modelo económico que é injusto.
A injustiça no modelo económico vigente não é transparente para todos por uma razão muito simples: é o poder vigente que tem a capacidade de formar o senso comum e, citando George Orwell "quem controla o presente controla o passado, quem controla o passado controla o futuro". A actual crise económica, no entanto, veio desmontar o grande pressuposto dessa justiça:

Quem tem mais é porque arriscou aquilo que é seu e porque trabalhou.

Se qualquer cidadão da classe média pegar nas suas poupanças e com elas abrir um negócio está de facto a arriscar o seu dinheiro, até porque se abrir falência a única coisa que lhe acontece é abrir falência. Ficar sem nada, portanto. O Estado não lhe dá uma segunda oportunidade do género "toma lá todo o dinheiro que investiste e tenta de novo"
No entanto foi isso que os Estados fizeram com os bancos e com os mercados financeiros. Falharam a todos os níveis, e falharam não só por causa da questão do subprime mas porque se deixaram envolver pela corrupção e pela ganância. Falharam e os Estados, com o dinheiro dos impostos de todos os que trabalham, deram-lhes uma nova oportunidade. No fundo o que aconteceu, por exemplo em Portugal, foi que nós demos 102 mil milhões de euros à banca para a banca nos poder emprestar esse dinheiro e nós devolvermo-lo de novo mas com juros. Grande negócio, não é? Grande e sem risco absolutamente nenhum.
Depois vem a questão do trabalho. É um erro dizer que num país em que há desemprego a maior parte das pessoas não quer trabalhar, e é um erro porque de facto uma percentagem considerável das pessoas não consegue trabalhar. Esta é a visão da mesquinhez, de quem não se importa que a banca tenha levado esses 102 mil milhões de euros dos nossos impostos mas incomoda-se que o vizinho, que "nem sequer" trabalha, tome o pequeno-almoço numa confeitaria do bairro.
Entenda-se que o desemprego é também uma opção dum modelo económico que se quer basear na lei selvagem da oferta e da procura, e é-o precisamente para que a procura de trabalho seja sempre superior à oferta e assim esse trabalho valha menos. É uma forma de garantir à partida um desequilíbrio na distribuição da riqueza produzida. Tenho dito... e vocês que também vão pagar a crise criada pelos bancos, vejam lá se não bebem vinho com o que vos resta do salário.

2 comentários:

Ana Soares da Motta disse...

Irrita-me profundamente o facto do RSI ser visto como uma esmola aos mais pobres. Se descontamos é sobre um primado socialista de redistribuição da riqueza, como tal, devemos ter direito a ela nos momentos difíceis.
O RSI é a máscara de oxigénio de muitos milhares de Portugueses - que trabalham- mas ganham muito pouco. O RSI é indispensável para estas pessoas poderem viver. O RSI muitas das vezes no seu patamar máximo, não consegue tirar alguém do limiar da pobreza.
Estamos a falar de uma média de 89 euros por mês que para uns é tanto e para outros é tão pouco....

bagaco amarelo disse...

ana soares da motta, exactamente... o RSI faz todo o sentido neste modelo económico, que não é o meu, porque só serve para uma coisa: matar a fome. :)