terça-feira, 16 de março de 2010

o trabalho liberta

Ouvi hoje no fórum TSF, a propósito das regras mais apertadas no subsídio de desemprego que o governo incluiu no PEC, um ouvinte a dizer que "quem vive com subsídio de desemprego vive à custa dos que trabalham" e que "a maior parte das pessoas não quer é trabalhar".
Eu sabia que já tinha ouvido um disparate parecido um dia destes mas não me lembrava onde. Depois, com algum esforço, cheguei lá: foi na Assembleia Municipal de Aveiro do passado dia 10 de Março quando, a propósito das preocupações do Bloco de Esquerda com os Sem Abrigo de Aveiro, um deputado do CDS-PP me disse que "os Sem Abrigo não querem trabalhar" e que "muitos desses Sem Abrigo vêm sabe-se lá donde".
Eu sabia que já tinha ouvido um disparate parecido com este mas não me lembrava onde. Depois, com algum esforço, cheguei lá: foi no campo de concentração de Auschwitz em cuja entrada os Nazis escreveram "o trabalho liberta".
Na referida Assembleia pedi ao senhor deputado do CDS que me mostrasse um estudo científico que provasse que os Sem Abrigo de Aveiro não querem de facto trabalhar, mas tudo o que ele foi capaz de me responder foi que "conhece alguns que não querem". Além disso, informei o mesmo deputado que fiquei a saber que ele prefere os Sem Abrigo que se sabe donde vêm do que aqueles que vêm sabe-se lá donde, e que isso se chama preconceito.
É mesmo de preconceito que estamos a falar e eu, admito, também acabo por ter alguns preconceitos. Por exemplo, conheço alguns administradores de grandes empresas que passam a vida a roubar e com isso levam um banco à falência, conheço também alguns ministros que fazem grandes injecções de dinheiro público nesse banco para ele não fechar e proteger os seus accionistas. Tudo disparates, é verdade, mas eu como não gosto de preconceitos tento não generalizar e por isso não digo que todos os administradores são uns ladrões, nem que todos os ministros são uns... hum... ladrões também.
Precisamente por não gostar de generalizar e achar que na política isso é um erro enorme, ou seja, tomar decisões com base no senso comum, é que nunca faria uma asneira tão grande como partir do princípio que os Sem Abrigo não querem trabalhar só porque um ou dois não querem. A mim até me parece, assim sem fazer um estudo exaustivo, que os Sem Abrigo querem trabalhar, sim, pelo menos se lhes pagarem condignamente. É que de repente parece-me melhor ser um Com Abrigo do que um Sem Abrigo. Ora pensem lá bem...
Talvez o CDS-PP goste de ir beber algum do seu método de trabalho a essa fonte do século passado que foi o Nazismo, e que vê o trabalho escravo como uma forma de engrandecer os homens. Eu não gosto, e prefiro ver o trabalho como um direito. Assim como o é a vida, por exemplo...

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