sexta-feira, 11 de setembro de 2009

debate sócrates versus louçã

Os debates das legislativas têm um pequeno (ou piqueno, como diria a Manuela Ferreira Leite) pormenor engraçado: no fim são sempre comentados por líderes de opinião de direita. Foram esses líderes de opinião que, no fim do debate entre o Sócrates e o Louçã, conseguiram que a questão da concessão da auto-estrada Oliveira de Azeméis/Coimbra fosse a mais falada no resquício do mesmo. A estratégia é simples e funcional: Num debate com o seu maior e mais eficaz opositor político, desviam-se as atenções para um só pormenor.

Louçã escorregou, de facto, quando deu a entender que o Governo ainda estava a pensar pagar 1174 milhões de euros pelo concurso da referida auto-estrada, adjudicado à Mota-Engil (ou seja, ao Jorge Coelho) por 535 milhões. É óbvio que Louçã não mentiu (isso seria um erro político primário), só não foi informado que o referido concurso já tinha sido anulado a 20 de Agosto. Aquilo que não se disse depois é que o Governo tentou efectivamente realizar essa negociata com o seu ex-camarada, e só não o fez porque a um mês dumas eleições que se adivinham disputadas seria um erro demasiado grave. Aliás, falta agora a Sócrates explicar porque é que, se a Estradas de Portugal anulou o referido concurso devido à subida do seu preço, não o fez em outras ocasiões em que aconteceu exactamente o mesmo, nomeadamente na auto-estrada do Algarve (em que o preço subiu 83%) e no Baixo Alentejo (em que subiu 167%). Hum... acredito que foi por não estarmos tão perto das eleições...

Mentira descarada, e que curiosamente passou despercebida pelos media, foi o primeiro-ministro esconder o seu passado político quando afirmou que fez sempre parte da mesma família política. É sabido que Sócrates fez parte da JSD e até é normal, já que a distinção do modelo económico defendido pelos sociais-democratas e pelo Partido Socialista é igual a zero, e só percebo a amnésia do primeiro-ministro pelo facto de ele saber que está a sofrer uma erosão no eleitorado de esquerda.

Falando de erosão à esquerda do Partido Socialista, as causas são muitas, e foram essas que ficaram por explicar nas não-respostas às questões colocadas pelo representante do Bloco de Esquerda. Sócrates fugiu às questões sobre a privatização da Galp e à negociata dos contentores de Alcântara, fugiu à questão da ajuda (e que ajuda) financeira e política que dá à banca comercial privada, fugiu ao facto do seu governo ser autor do código de trabalho mais direitista da História democrática deste país (que, aliás, contou com a preciosa ajuda do provedor das empresas de trabalho temporário) e refugiou-se em clichés, chamando repetidamente extremista a Louçã e criando uma enorme confusão na questão do fim dos benefícios fiscais propostos pelo Bloco.

Sobre extremismo estamos falados: um líder de um partido democrático só chama extremista ao representante de outro partido democrático e que, portanto, joga politicamente com as mesmas regras, quando quer afastá-lo da discussão política e, isso sim, é extremista. Na minha opinião também é extremista, por exemplo, colocar à disposição da banca vinte mil milhões de euros em plena crise social mas... para o Sócrates isso parece ser "normal".

Sobre a questão dos benefícios fiscais a explicação de Louçã foi simples e apenas o primeiro-ministro não a percebeu: o regime fiscal do PS é injusto porque não é para todos (só tem esses benefícios fiscais quem tem dinheiro para os conseguir) e, por isso, devemos ter um regime fiscal que não exige dinheiro à partida (educação gratuita, saúde gratuita, serviços públicos de qualidade, etc, etc)

2 comentários:

Miguel disse...

Ó Bagaço,

O Socrates deu um banho ao Louçã. Há que reconhecer isso. Foi até uma surpresa pois esperava-se um Louçã mais bem preparado. Foi, nitidamente, um mau momento para o BE.

Já, por exemplo, a Manuelinha, esteve à altura do Sócrates, contra tudo o que seria de prever (eu não sou de um nem do outro, diga-se, para não ficares com ideias...). Só uma corja de comentadores tendenciosos (alguns) não conseguiram ver isso.

E o facto de o mentiroso mor ter dito várias vezes "não percebo, não percebo" quando se esgotavam os argumentos... E ninguém ligou...

Estava tudo feito, isso é que é verdade. A classe jornalistica é de tão baixo nivel quanto a classe politica!

Mainada!

Abraço

bagaco amarelo disse...

Miguel, aceito que tenhas essa visão. eu não concordo, obviamente, com ela. Acho que o Louçã discutiu política e o Sócrates tentou perder tempo... :)