quinta-feira, 21 de novembro de 2013

no país do Rodinhas



Ninguém quer trabalhar, diz ele. Abano os ombros, estendo-lhe a mão à espera do meu troco enquanto o umbigo dele aproveita uma barriga redonda para tentar sair das calças e da camisola demasiado curta, como se me estivesse a espreitar. Perante o meu silêncio, ele insiste. Neste país ninguém quer trabalhar, repete. Saio sem contar as moedas. Este país cansa-me.
Ainda ontem, exactamente no mesmo café, uma empregada queixava-se entre dentes de que tinha o seu magro salário de quatrocentos euros em atraso. Agora, quem falava comigo assim era o patrão. O mesmo que acha que neste país ninguém quer trabalhar. Este país cansa-me.
É o país do Rodinhas, orgulhoso por ser capaz de juntar vinte toneladas de tampinhas de plástico para comprar uma cadeira de rodas a um deficiente que não tem, nem nunca vai ter, a dignidade que um Estado deve a qualquer um dos seus cidadãos. Juntamo-nos para isso, para juntar tampinhas e para celebrar um golo do Ronaldo. Logo a seguir viramos costas uns aos outros. Uns vivem em casas com muros altos e cacos de vidros a defender o território, outros num vão de escada, de mão estendida à espera de mais alguns minutos de sobrevivência. É aí que deixamos de ser portugueses. No nosso dia-a-dia, a olhar para o chão para não ver mais nada.
E por falar em nada, não interessa que eu já não tenha quase nada. Claro, desde que tenha mais do que o meu vizinho. Ele ainda passa por mim e pensa que a minha vida de merda é melhor do que a dele. Óptimo, isso chega-me. Até porque no mesmo dia em que se fala de um segundo resgaste assalto a quem trabalha neste país, o que me preocupa é o desempregado que ainda tem dinheiro para ir lanchar ao café. Sacana, o gajo.
É este um país que não tem coragem de se ver ao espelho, de reparar nas próprias rugas e no seu envelhecimento precoce. Não se vendo, sai à rua todos os dias sem perceber a sua figura. 
Cá fora respiro o ar como se estivesse a sair duma longa apneia. Conto finalmente o troco e dou pela falta de um euro. Torno a entrar. Falta um euro no troco, digo. Mas o homem está aos berros com a empregada, aquela que tem o salário em atraso apesar de ganhar menos do que o salário mínimo, aquela que ganha apenas o suficiente para poder continuar a trabalhar. Sem morrer, mas sem viver também. Levanto a voz e grito que o meu troco está errado. Desta vez não refiro que recebi um euro a menos, mas é essa a quantia que ele, dando um murro na gaveta da caixa, me dá.
Ninguém quer trabalhar, insiste ele mais baixinho. E eu, desempregado de meia idade a fazer todos os esforços para sair deste país, dou-lhe razão. Eu não quero trabalhar, pelo menos no país do Rodinhas.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Como João Semedo traiu o Bloco

Voltemos um pouco atrás no tempo, à última Convenção do Bloco de Esquerda, na qual se tornaram coordenadores nacionais do partido Catarina Martins e João Semedo. Eu estive lá, como delegado, e votei favoravelmente a moção política que ambos subscreviam. Não me arrependo, que a moção ainda é o que era. Uma moção que colocava o partido na linha frente na construção duma alternativa a um governo que mais não faz do que entregar o país às mãos da Troika.


Do ponto de vista político, aliás, as duas moções discutidas eram tão assertivas quanto semelhantes. O que as distinguia não era bem a política, mas sim o caminho a seguir. A moção A, a vencedora, defendia uma necessidade total duma viragem à Esquerda, sem cedências à ideia de que se pode confiar num mal menor chamado Partido Socialista, que mantinha (e mantém) a sua assinatura num memorando que destrói a vida de todos nós. A moção B, que perdeu, colocava o BE como a bengala do PS nos anos seguintes. Por isso apoiei e escolhi a A.

O problema que se seguiu chamou-se sempre João Semedo. Desrespeitou aquilo por que foi eleito e colocou o BE numa posição submissa a um PS que, ainda por cima, todos os dias pendia ainda mais para a direita. Ele próprio pareceu desistir do projecto nacional quando se candidatou à Câmara Municipal de Lisboa, assumidamente para fazer um entendimento pós-eleitoral com Costa. Começou por dizer ao DN, em 16 de Junho deste ano, que “é compatível ser vereador, ser deputado e ser coordenador do BE”. Até pode ser compatível, mas também é contrário à confiança que os aderentes do Bloco nele depositaram. Pior, é uma busca absurda por protagonismo que apaga o resto do partido.

Claro que a coisa não ficou por aqui. Cheguei a duvidar a que partido o meu camarada João Semedo pertencia. Se ao Bloco, se ao PS. Em Julho deste ano, os partidos da Troika chumbavam a proposta do Bloco na AR para renegociar a dívida, salvar os salários e o Estado Social. Ao mesmo tempo, Cavaco evitava eleições antecipadas pela “irrevogável” demissão de Paulo Portas e esses mesmos partidos davam as mãos em torno da austeridade. As coisas pareciam claras: o PS encostava-se ao programa que salva bancos e leva pessoas à falência. 

Como um herói surgindo do nada, apenas Semedo saiu em defesa de Seguro, dizendo não acreditar que o “PS que tem vindo a sublinhar a sua política de oposição a esta maioria, venha agora dar a mão a uma maioria caduca e decadente”. Não acreditou, mas aconteceu.

Por essa altura, o que ficou claro é que João Semedo traíra todos os que o apoiaram na moção A. Talvez por isso, nos espaço de dez meses, a intenção de voto no Bloco de esquerda tenha caído para os 6%. E isso paga-se caro. Claro que paga.

Regressemos aos dias que correm, no meu caso a Aveiro. Uma equipa numerosa de pessoas que abdicam de si todos os dias para que o Bloco exista, trabalhou muito, desde a construção do programa político, que envolveu inúmeras reuniões com cidadãos, até à colagem de cartazes, passando por toda a difícil burocracia. Estar na política envolve muito sacrifício, embora Semedo não o saiba.Todos fizeram de tudo, às vezes com quatro horas de sono por dia, em torno duma enorme vontade de mudança. Os maus resultados também andaram por cá, mas mantivemos a capacidade de luta, com um eleito na Assembleia Municipal, outro na maior freguesia do concelho e uma pequena grande surpresa em Ílhavo, onde pela primeira vez se elegeu para a Assembleia municipal.

Qual foi a reacção de Semedo? O mesmo que passou os últimos dez meses a defender as políticas de direita do Partido Socialista, veio à Antena 1 dizer que o Bloco não apresentou candidatos credíveis nas eleições e que o trabalho autárquico do Bloco tem sido mau.
Não tinha esse direito, mas ainda bem que o fez publicamente. Eu tenho agora legitimidade para lhe dizer aqui que considero que ele é o maior responsável pelos péssimos resultados nas eleições. Dirigiu o partido de forma péssima, numa linha política que contraria as bases do partido e, pior do que tudo, traiu quem nele confiou.

A boa notícia é que o Bloco é maior do que o João Semedo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Juntos pela Batota

Pode parecer simples, mas a distribuição de representantes das diversas forças políticas pelas mesas de voto é a forma mais eficaz de garantir justiça no processo democrático. Assim, cada uma das forças políticas tem o direito de escolher os seus próprios nomes e, numa reunião que se pretende equilibrada e séria, distribui-los de acordo com o princípio básico da igualdade.
Pois bem, ontem foram as reuniões para a distribuição dos cargos nas mesas de voto das próximas eleições autárquicas e nada correu normalmente. Porquê? Porque a candidatura Juntos por Aveiro quis nomear mais representantes do que as outras forças políticas. A explicação é tão absurda quanto o motivo: dizem eles que a lista "Juntos Por Esgueira", por exemplo, nada tem a ver com  candidatura "Juntos por Aveiro". Uma concorre à junta de freguesia de Esgueira e a outra concorre à Câmara Municipal e à Assembleia, sendo totalmente independentes uma da outra.
Nem de propósito. Hoje fui à minha caixa de correio e vi um folheto conjunto das duas candidaturas que "nada têm a ver uma com a outra". É o folheto do "Juntos pela Batota".

sábado, 17 de agosto de 2013

O Beira-Mar definha!

O verdadeiro Beira-Mar definha. O fim da equipa sénior de basquetebol é apenas o culminar da morte lenta que as modalidades vêm sofrendo há anos. O mais (des)interessante, é que tudo acontece nas mãos de quem jura a pés juntos defender os máximos interesses do clube e de Aveiro, ou seja, de políticos que, das duas uma, ou não defendem aquilo que dizem, ou são muito incompetentes no que fazem. Eu inclino-me para ambas as hipóteses, até porque tudo acontece em nome duma equipa profissional de futebol que também anda pelas ruas da amargura.
Em primeiro lugar, talvez os sucessivos responsáveis pelo clubes se tenham esquecido precisamente do que deve ser o principal objectivo duma associação desportiva. ou seja, permitir que os cidadãos pratiquem desporto. É muito simples, ou devia ser, até porque é em nome desta simplicidade que surge aquilo que se chama "amor à camisola" e não doutra coisa qualquer. Em Aveiro trocou-se esse "amor à camisola" por negociatas manhosas, uma inaceitável sociedade por quotas e vãs tentativas de aproveitamento político. É pena, o Beira-Mar definha.
António Regala, candidato à Assembleia Municipal de Aveiro nas eleições autárquicas de há quatro anos, abdicou de representar aqueles que o elegeram como único deputado do Partido Comunista Português para se tornar presidente do clube mais representativo da região de Aveiro, ou seja, para supostamente inverter o caminho negativo de que, na geração anterior, Artur Filipe é o autor. Como é que o fez? Criando uma sociedade por quotas cujo accionista maioritário é um milionário iraniano com um nome difícil de pronunciar. Estranha forma de comunismo, digo eu. Talvez por isso mesmo, o PCP sempre tenha votado ao lado dos partidos da direita que gostam de ir para a cama com o futebol, incluindo no que se refere à negociata manhosa das piscinas municipais, vendidas ao Beira-Mar por cerca de 1,2 milhões de euros, e depois à empresa Nível 2 por 2,3 milhões. O valor de mercado do terreno era, pelo menos de cinco milhões.
E o Beira-Mar definha. Talvez faça falta quem perceba que o desporto não é roubar património público para o perder no poço sem fundo duma equipa profissional de futebol, que serve apenas os interesses lucrativos duma sociedade por quotas. Talvez faça falta quem perceba que um clube deve servir para que as nossas crianças tenham escolas de desporto e para que o desporto seja isso mesmo. Não uma indústria.
Por fim, talvez faça falta também quem perceba que política e futebol são péssimos na mesma cama.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Aveiro Debaixo de Água

O 8º Relatório de Acompanhamento do Plano de Saneamento Financeiro da Câmara Municipal de Aveiro tem dois pontos que são o paradigma do que tem sido a Política de direita no nosso país.´Primeiro, exibindo o seguinte quadro, orgulha-se da diminuição do número de colaboradores da Câmara Municipal como forma de poupar dinheiro à Autarquia, ou seja, através do envio de pessoas para o desemprego.


Algumas páginas depois, justifica o aumento do valor das ajudas de custo da seguinte forma:

O aumento do valor das ajudas de custo, deve-se ao facto do Município, ao abrigo do Programa Emprego-Inserção, ter celebrado contratos com beneficiários do subsídio de desemprego e do subsídio social de desemprego, aos quais teve de pagar as despesas de transporte entre a residência habitual e o local da actividade

Para além de enviar pessoas para o desemprego, a Câmara Municipal de Aveiro aproveita depois mão de obra barata dos próprios desempregados, pagando-lhes apenas um subsídio social e as despesas de transporte.

Mas o mais gritante disto, é que o esforço para poupar dinheiro esbarra depois, de frente, em tudo o resto. Na mesma sessão da Assembleia foi aprovada pela maioria de direita, e pela segunda vez, a negociata conhecida como o Negócio das Piscinas.

Em Novembro de 2008, já tinha sido aprovada a venda do terreno das piscinas ao Beira-Mar por um preço bastante abaixo do seu valor real. O problema começou quando, pela calada da noite e uns minutos depois, o Beira-Mar vendeu esse mesmo terreno à empresa Nível 2. Na mesma noite, portanto, o mesmo terreno foi vendido ao Beira-Mar por cerca de 1,2 milhões de euros, e depois à empresa Nível 2 por 2,3 milhões. Quem é que ficou a ganhar com este negócio? O Beira-Mar e a Nível 2. Quem é que ficou a perder? A Autarquia, que se viu sem património calculado em quase 5 milhões de euros.

Para além da direita, quem votou a favor deste negócio em 2008 foi o deputado do PCP António Regala, o mesmo que hoje é, por uma enorme coincidência, presidente do Beira-Mar e, portanto, parte interessada neste negócio lesivo para o interesse público. O PCP, aliás, tornou a votar a favor do negócio agora, em 2013, ao lado do PSD e do CDS.

Depois deste descalabro, as propostas do Bloco para que a água volte a ser pública em Aveiro, foram recusadas pela direita por motivo económicos. O Bloco defende taxas progressivas, para que quem tem piscinas e jardins pague mais do que quem tem apenas uma torneira em casa. Estas taxas progressivas permitiriam manter um fornecimento mínimo gratuito de 50 litros /dia aos cidadãos. A direita acha que isso é despesismo...

Melhor ainda, um deputado do CDS, Paulo Marques, acusou o Bloco de estar a pensar distribuir 50 litros de vinho por dia aos cidadãos. E porque de palermices já chega, fico-me por aqui.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

bora lá à China?

Em 2007, o então ministro da Economia Manuel Pinho, numa viagem oficial à China, apresentou os baixos salários dos trabalhadores portugueses como uma vantagem comparativa ao investimento chinês. O discurso tinha uma certa lógica, apesar de tudo, para quem é de direita. É a direita que defende a desvalorização do valor do trabalho e que vê no investimento, não uma forma de criar riqueza para todos, mas sim uma forma de criar riqueza para poucos.
Já em 2012, foi Paulo Portas quem fez uma  visita oficial àquele país, na sequência de uma série de negócios que empobreceram drasticamente o nosso país. A aquisição pela China Three Gorges de 21,35% da EDP;  a venda  de 25% da REN - Redes Energéticas Nacionais e mesmo a Galp, que vendeu 30% da Petrogal Brasil à chinesa Sinopec, contribuiram para o estreitar de laços entre a direita portuguesa no poder e o Partido Comunista Chinês.
O senhor que se segue, agora, é Jerónimo de Sousa, do Partido Comunista Português, que está já na China em visita oficial. O que faria o PCP relativamente à privatização da Edp, se estivesse no governo, é apenas a primeira pergunta que me surge. De qualquer forma, e ao contrário de Manuel Pinho em 2007 e de Portas em 2012, fico à espera que Jerónimo de Sousa critique os baixos salários dos trabalhadores portugueses e chineses, algo que não vai acontecer.
Que partidos do poder em Portugal, com homens que demonstraram claramente estar na política para se servirem a si mesmos e não à população, estabeleçam relações oficiais com o Partido Comunista Chinês, entendo perfeitamente. Que o Partido Comunista Português também o faça, já não. Pergunto-me porquê...

sábado, 26 de janeiro de 2013

Bloco de Esquerda - Aveiro abre canal no Youtube

O Bloco de Esquerda - Aveiro abriu um canal no Youtube que pode ser seguido aqui. Não queremos, no entanto, que este canal funcione num só sentido. Por isso estamos abertos a sugestões de todos os aveirenses para denunciar, propor e mudar.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Orçamento da Autarquia Aveirense para 2013

Da fraude da direita aveirense e de como o PCP não existe em Aveiro

Como é que uma Assembleia Municipal duma capital de distrito discute o Orçamento Municipal para o ano seguinte? Principalmente com silêncio, porque quando não se consegue defender aquilo que se faz, o silêncio é de ouro. É assim a maioria da direita (PSD/CDS) em Aveiro, em que apenas dois dos quatro deputados do CDS pediram para intervir e, no PSD, cinco em vinte. Para além disso, o PCP não existe. O único deputado comunista presente recusou-se a falar porque o site da autarquia esteve em baixo todo o fim de semana e não pôde fazer o download dos documentos. No PS, oito em onze deputados intervieram. No Bloco, dois em dois.
Numa discussão tão importante como esta, os documentos não se podem ir buscar apenas no fim de semana anterior. O Bloco, aliás, já tinha apresentado duas semanas antes oito propostas orçamentais que não foram tidas em conta: a criação de um serviço social directo da Câmara Municipal, a adopção de uma política fiscal local de combate ao actual assalto fiscal da Troika, uma política social de habitação, um programa de reabilitação urbana (do espaço público e do edificado), defesa da água como um bem público, uma política de mobilidade pública, o fim de qualquer parceria entre privados e o público em Aveiro e, por último, um novo Orçamento Participativo.
A furar o silêncio à direita, um deputado do PSD congratulou-se com o facto de a câmara ter cada vez menos funcionários, ou seja, de haver cada vez mais desempregados (menos alguns familiares dos vereadores que, entretanto, foram admitidos, como a própria mulher do vereador das finanças, por exemplo); outro, desta feita o líder da bancada, admitiu que a Acção Social deve ser sempre feita com muito pouco dinheiro e muito voluntarismo.
A verdade é que o Orçamento da autarquia aveirense para o ano de 2013 é um fraude. Baseia-se em três grandes bandeiras: Acção Social, reforma do parque Escolar e a reparação da rede viária.
Relativamente à Acção Social, o dinheiro considerado para Acção Social Directa é igual a... zero, tirando 840 euros inscritos no item "outros investimentos". De resto, o muito divulgado programa Aveiro Solidário, que passa pela transferência de competências nesta área para as freguesias, prevê 10 000/ ano para todas elas e 10 000/ano para todas as IPSSs.
A reforma do Parque Escolar de Aveiro não é mais do que o resultado de anos e anos de esquecimento por parte da autarquia de que as escolas têm que ter um mínimo de condições, assim como da negociata falhada com a concessão de estacionamentos privados em Aveiro. De facto, notícias sobre frio e chuva nalgumas salas de aula em Aveiro já são Vox Populi há muito, e a resolução desse problema passou por tentar que uma empresa pagasse as obras em troca de poder ficar com a concessão de alguns parques de estacionamento subterrâneo a construir (em vez da candidatura ao QREN). A coisa falhou e perderam-se oito anos.
Quanto à reparação da rede viária ainda é mais simples de perceber. As estradas em Aveiro já são mais buracos do que alcatrão, mas o Executivo decidiu não gastar a verba prevista para 2012 e gastá-la, isso sim, em 2013. Eu diria que o vai fazer antes das eleições, a ver se tapa as suas asneiras com alcatrão...
É difícil explicar num texto tão curto tudo o que de negativo o Orçamento tem, mas sublinho como exemplo a entrada de 131 000 euros no Capital Social do Parque de Ciência e Inovação, um Parque de Investigação Científica e Tecnológica que vai ser tudo menos isso (tanto que até já tem projectado para o local alguns campos de golfe) e que permitirá assim roubar casas e terrenos a pequenos proprietários dos concelhos de Aveiro e Ílhavo...

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

há coisas fantásticas, não há?

Uma aventura na Assembleia de Freguesia da Glória

Os deputados do PS votaram a favor, ontem, o Orçamento da Junta de Freguesia da Glória para 2013. Nada demais, afinal de contas é normal ver o PS a viabilizar orçamentos do PSD e do CDS um pouco por todos o país, incluindo a Assembleia da República. É uma escola, portanto, esta viabilização.
Estranho é que se aprove um Orçamento sem qualquer argumento favorável ou contrário ao documento. Aliás, apenas o Bloco de Esquerda pediu para intervir, tarefa difícil porque, conforme o presidente da Mesa foi dizendo, era melhor não perder muito tempo a falar porque havia ali gente com pressa de ir embora. Fantástico! Aliás, na ausência prolongada de declarações da bancada do PSD (apenas um dos seus deputados pediu para fazer várias intervenções), o líder da bancada do PS conseguiu cometer a proeza de, na primeira vez que falou, aceitar que estava errado mas tinha que continuar a sua intervenção assim porque era o que tinha escrito no papel. Tratava-se de criticar o voto a favor da Reorganização Administrativa do território, na Assembleia Municipal, do presidente daquela Junta. Só que o presidente tinha votado contra. Reacção: "Pois! Mas agora tenho que continuar a ler isto assim porque é o que está escrito". Fantástico de novo.
Mas voltando ao orçamento, aquilo é "come e cala". Não se fazem perguntas e por isso não há respostas. O Bloco criticou, entre outros aspectos, o facto de se gastar a mesma verba com noventa pessoas que praticam chu-king e hidroginástica (que mesmo assim pagam as sessões) e com um programa de acção social para pelo menos 270 famílias (ou seja, mais de setecentas pessoas) identificadas num estado de emergência social. Criticou também, por exemplo, que se gaste mais de dez vez mais na construção dum edifício (casa da sustentabilidade: €509.900,00 em 2013) do que com todo o programa de ordenamento do território (€45.500,00) que, assim, se resumirá a três ruas. Não teve resposta. Foi o único a votar contra.
Demonstrada ficou a promiscuidade entre a venda dum terreno à Mc Donalds para a construção de um restaurante daquela multinacional e a candidatura da Junta a um programa de apoio social para a construção de um balneário público. Em nome da transparência, foi explicado a deputado do Bloco que os elementos da Junta se deslocaram ao Porto para fazer a escritura e, assim que receberam o cheque, um senhor disse-lhes: "agora já estão em condições preferenciais para entrarem na parte social da empresa". Uau!
Eufórico, o PS saiu em defesa do PSD e chamou o Bloco de partido utópico nesta questão. Para o PS é utópico, portanto, construir um balneário público com dinheiros públicos, com alguns chuveiros, torneiras e água corrente. Eu não sei quantos balneários deste género existem no Estádio Municipal de Futebol com 30 000 lugares que o PS mandou construir há uns anos, mas sei que tem uma assistência média inferior a 1000 pessoas. De utopia estamos conversados. De palermice também.

domingo, 16 de dezembro de 2012

a miséria destapada

(guardar a imagem no disco duro, para conseguir ler)

O Diário de Aveiro publicou ontem uma notícia sobre a denúncia feita pelo Bloco de Esquerda - Aveiro sobre um exemplo de miséria escondida em Aveiro, à qual os serviços sociais da Câmara viraram as costas.


sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

a miséria escondida

Não há miséria pior do que aquela que se esconde.
O Bloco de Esquerda teve conhecimento, através de alguns moradores, de mais um caso de manifesto desprezo da autarquia aveirense pelos direitos mais básicos e essenciais da população, e denunciou-o na Assembleia Municipal. Preto no Branco. Os resultados não se fizeram esperar.
M., moradora no Bairro de Santiago, não tem emprego, está doente e sozinha e mesmo assim nunca conseguiu nenhuma contribuição do Estado. A edp cortou-lhe o fornecimento de energia eléctrica, por falta de pagamento, e o mesmo aconteceu com a água e com o gás. Ficou sem nada, a não ser o direito de habitar uma casa de renda social, paga a custo pela magra pensão de um familiar que não pode fazer mais do que isso.
Alguns moradores deram conta da situação e indignaram-se. Contactaram a junta da freguesia da Glória na procura de um amparo mínimo a mais um exemplo de miséria social. A resposta foi tão evasiva quando inócua: "A responsável pela Assistência Social está de férias no Brasil e não deixou substituto". Depois disso contactaram o Bloco de Esquerda - Aveiro.
Em discussão sobre a nova estrutura orgânica do Município, o Bloco perguntou para que é que se criavam tantos gabinetes novos, alguns dependentes directamente do presidente do executivo, se, cada vez que um responsável por uma área vai de férias para o Brasil, os serviços ficam reduzidos a zero. Depois deu este exemplo e teve como resposta... o silêncio envergonhado.
Até hoje, e depois do início do processo de alguma exposição pública do caso, houve um telefonema a prometer resolver o problema da água e da electricidade. A falta de vontade do executivo do PSD esbarrou nas evidências e, a custo, lá terá que responder a um exigência da Esquerda.
Fica por esclarecer porque é que, em tantos gabinetes criados, e com tantos amigos e familiares dos membros do Executivo da pseudocoligação PSD/CDS a entrarem para os quadros da Câmara Municipal de Aveiro, ainda não se criou um grupo de detecção de casos de emergência social.
Apesar de tudo, este é também um exemplo de que vale a pena lutar!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

inaugurado edifício em construção


O Bloco de Esquerda inaugurou hoje o edifício em construção da sede da Junta da Freguesia da Glória, em Aveiro. Ainda está em construção, é verdade, mas esta inauguração serve para que o PSD e seu apêndice CDS comecem a pensar numa nova utilização para o edifício, que ficará em cerca de setecentos mil euros.
É que, se por um lado a coligação de direita decidiu construir este edifício no âmbito do Parque da Sustentabilidade, por outro decidiu também que aquela freguesia será agregada à da Vera Cruz, exactamente onde a lei prevê que ficará a nova sede.
O Bloco de Esquerda já tinha agendado, para o dia 14 de Dezembro, uma discussão na Assembleia da República para revogar a lei que extingue freguesias, assim como para discutir as várias petições com milhares de assinaturas a solicitar essa revogação. No entanto, para contornar essa discussão, PSD e CDS fizeram um agendamento potestativo, para os dias 6 e 7 do mesmo mês, com vista à promulgação da lei antes dessa discussão.
É uma forma de governar nas costas dos cidadãos e contra os cidadãos, mas é também a assumpção de que a direita não sabe o que anda a fazer ao país. A lei apresentada na Assembleia da República teve, aliás, como base uma proposta das suas estruturas locais de Aveiro, apresentada previamente na Assembleia Municipal. Diversos presidentes de freguesias que nas suas reuniões se tinham manifestado contra a extinção de freguesias, votaram então a favor daquilo de que pareciam discordar.
A extinção de freguesias não é mais do que uma exigência da Troika que, como todos sabem, não vai resolver absolutamente nada, já que o peso orçamental destas não chega a 1% do orçamento nacional. As concelhias do PSD e do CDS em Aveiro mostram assim o que são verdadeiramente, ou seja, apenas agências de serviços do poder central, mais troikistas que a Troika.
Agora, enquanto esperamos que se decida qual a nova utilidade a dar ao edifício em construção, pago com o dinheiro de todos nós, o Bloco de Esquerda continuará a lutar para que a lei seja revogada. A sessão para dia 14 mantém-se...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

está finning

O finning é uma das formas mais absurdas de pescar, até porque não se pesca nada. Praticamente só se mata. Consiste em cortar a barbatana a um tubarão, para fazer sopa, e devolver o animal ao mar que, sem conseguir nadar, encontra uma morte lenta e atroz.
O parlamento Europeu votou uma lei pelo fim desta barbárie, que foi aprovada essencialmente com os votos contra de alguns deputados portugueses e espanhóis. Leonel Moura acusa no Jornal de Negócios, e muito bem, os deputados portugueses de terem votado contra o fim do finning. Aquilo que ele não soube foi informar-se, pois nem todos o fizeram. As representantes do Bloco de Esquerda votaram  pelo fim desta prática.
O Bloco de Esquerda, aliás, tanto na Europa como no país, tem concentrado esforços na defesa e protecção dos direitos dos animais. Uma das formas de descredibilizar esse trabalho é mentindo a um país inteiro sobre o seu sentido de voto nesta questão. Leonel Moura conseguiu-o e o Jornal de Negócios também...

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O Mr Troika e a Miss Portugalia

Afinal havia dinheiro para salários

Não é novidade nenhuma. Para convencer os portugueses de que o empréstimo que os bancos alemães fizeram a Portugal, através da Troika, era mesmo necessário, foi dito que já não havia dinheiro para pagar salários. Não era verdade. Aliás, pagar salários começa a ser difícil agora que a dívida é bastante maior por causa dos juros pagos a esses bancos.
O Bloco sempre disse que era mentira, e recusou-se a ajoelhar-se perante uma reunião que não passava duma farsa. Agora, quem o diz também, é Emanuel dos Santos, ex-secretário do Estado do Orçamento entre 2005 e 2011, ou seja, dos governos de Sócrates.



Quem se sentou à mesa com a Troika e assinou o pacto para destruir o tecido produtivo e o Estado Social deste país sabia o que estava a fazer. Sabia até que estava a ser passada uma factura aos trabalhadores portugueses pela sua própria incompetência na gestão do país.
O Mr Troika e a Miss Portugalia fazem a festa em reuniões onde ninguém sabe o que é discutido. Nem como. Sabe-se apenas quais são as consequências: desemprego, pobreza e fome. Só pode ser uma festa!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

o beijo da morte


É tudo muito simples, a Merkel veio hoje a Portugal para que o Coelho lhe beije a mão. Com esse beijo, tenta convencer os portugueses que aquilo que o seu vassalo está a fazer ao país é o único caminho possível. Tenta explicar que a austeridade e a miséria são a única forma de resolver os problemas de um país que viveu acima das suas possibilidades.
A questão é que já ninguém acredita nisto. Nem os portugueses viveram a cima das suas possibilidades, nem a austeridade é um caminho possível para chegar onde quer que seja. A não ser, claro, que se queira chegar à morte de um país. Este é assim, o beijo da morte. Por isso mesmo, um grupo de cidadãos livres decidiu protestar com esse beijo em três cidades: Lisboa, Porto e Aveiro, através da colocação de panos negros em algumas das suas estátuas. Não é um luto, é mesmo um protesto. Até porque quem defende os seus direitos até ao fim nunca morre.
Foi a Merkel, primeiro com Sócrates e depois com Coelho, que tentou convencer os portugueses que precisavam urgentemente de dinheiro para pagar salários, mas nem isso era verdade, nem o empréstimo era apenas um empréstimo.
De facto, nesta altura em que escrevo, a dívida nacional, por causa dos juros especulativos impostos ao Estado Português, já é superior à do dia anterior à entrada da Troika em Portugal em mais de 13 mil milhões de euros, mas os salários dos funcionários públicos ainda estão a ser pagos. A urgência era, assim, outra. Era a urgência da capitalização da enfraquecida banca alemã através dos países do sul da Europa. Este mecanismo, em que os bancos privados alemães pedem dinheiro barato ao Banco Central Europeu para o vender caro a Portugal, à Espanha e à Grécia, salva bancos e mata pessoas. É por isso que não o podemos tolerar.

sábado, 10 de novembro de 2012

O que é o Bloco hoje...



Apresentação da moção A pelo deputado Pedro Filipe Soares, na VIII Convenção do Bloco de Esquerda.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O que é que faz um homem nu?

Pergunto-me a mim próprio como é que cada português que ainda tenciona votar num partido da esfera do poder, um qualquer, seja o PS, o PSD ou o CDS,  reagiria perante um assalto. Confrontado numa esquina qualquer duma cidade com um homem armado, pediria ao assaltante para baixar a arma e entregaria a carteira e a roupa de boa vontade. Só pode.

- Baixe lá a arma, homem! Leve tudo o que eu tenho e tudo o que eu hei-de ter. Eu cá me safo. Com fome  e frio, é certo, mas cá me safo.

O que é que faz um homem nu? O que é que faz um homem a quem, depois de anos a viver no limite, disseram que tem uma dívida enorme porque viveu acima das suas possibilidades? Diz que sim a tudo? Talvez sim, talvez não.
O que é que faz um homem nu? Chama a si a dívida que foi o roubo do BPN? Chama a si a dívida dos juros especulativos da Troika? Não come e cala?
O que é que quer um homem nu? E eu que pensava que queria vestir-se. Sair por aí e comer qualquer coisa. E eu que pensava que queria trabalhar, estudar, ouvir um disco, ir ao teatro. Enganei-me?


terça-feira, 16 de outubro de 2012